A Substância: crítica social sobre o culto à juventude

Tem filmes que chegam para provocar — e A Substância, agora disponível na HBO Max, é um desses. Se você não viu nos cinemas, essa é a chance de mergulhar nessa mistura de horror, drama e crítica social que virou um dos títulos mais comentados (e desconfortavelmente atuais) dos últimos anos.

Metáfora da vida

Logo nas primeiras cenas, o filme já entrega sua metáfora central: a câmera desliza sobre uma estrela na calçada da fama com o nome Elisabeth Sparkle — a personagem de Demi Moore. É um símbolo perfeito: o brilho do sucesso estampado no chão, pisoteado por quem passa. O glamour do passado virando pó.

Demi Moore interpreta essa ex-estrela com uma intensidade que é quase dolorosa de assistir. Ela não tenta ser simpática ou heroica — é uma mulher à beira do colapso, engolida pela própria imagem. E é impossível não perceber o espelho com a vida real da atriz: alguém que também foi ícone de beleza e sensualidade nos anos 1980 e 1990, que agora encara Hollywood de frente, sem filtros.

Beleza e repulsa

A diretora Coralie Fargeat cria um espetáculo visual. A fotografia brinca com cores saturadas — verde, rosa, amarelo e vermelho ganham tons quase plásticos, como se o mundo inteiro fosse uma vitrine — e a câmera se aproxima demais, invadindo rostos, rugas e peles como quem quer nos lembrar: “olha, isso é real”.

Mas a verdadeira virada vem quando conhecemos Sue, a versão jovem de Elisabeth, interpretada por Margaret Qualley. E aqui entra o contraste que dá força à história: Qualley surge luminosa, quase etérea, com uma presença que mistura inocência e perigo. Sua beleza é filmada com suavidade e desejo, mas também com uma ironia cruel — afinal, ela é o ideal impossível, a juventude engarrafada, o “produto” que consome quem a criou.

O jogo de câmeras reforça essa oposição: quando Demi aparece, o enquadramento é frio, estático, quase claustrofóbico. Já nas cenas com Margaret, o movimento é fluido, sedutor, cheio de vida. É o próprio cinema reproduzindo a desigualdade que o filme critica — quem envelhece perde o foco, quem é jovem ganha a luz.

Busca por relevância

No fundo, A Substância fala sobre algo que ultrapassa Hollywood. É um espelho do nosso tempo, em que cada curtida, filtro ou story é uma tentativa de permanecer relevante. Coralie Fargeat não entrega conforto — ela esfrega a vaidade e o desespero humano com estilo e ousadia, e faz isso sem pedir desculpas.

Demi Moore, por sua vez, entrega uma das melhores atuações da carreira — crua, vulnerável e sem medo do grotesco. É como se ela dissesse: “sim, eu também fui uma Sparkle, e olha o que sobrou do brilho.”

Se você curte filmes que te fazem pensar (e talvez te deixem um pouco desconfortável), A Substância é uma opção quase obrigatória. Agora que está na HBO Max, vale assistir, discutir e digerir — porque esse aqui não é só um filme sobre envelhecer, mas sobre o preço de tentar ser eterno.

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